O americano Donald Spoto é um renomado biógrafo que escreveu, dentre outras personalidades, sobre Audrey Hepburn, Marilyn Monroe, Grace Kelly e Alfred Hicthcock. Sobre o famoso diretor inglês publicou três livros: The Art of Alfred Hitchcock, de 1974; The Dark Side of Genius, de 1983; e Fascinado pela Beleza: Hitchcock e suas atrizes, de 2008.

A pesquisa de Spoto sobre Hitchcock engloba, portanto, mais de trinta anos. Durante esse período o biógrafo conversou diversas vezes com o próprio diretor e também com pessoas próximas, incluindo atores e atrizes que atuaram em seus filmes.

No prefácio de Fascinado pela Beleza, Spoto explica o objetivo do livro. De acordo com ele “Alfred Hitchcock morreu em 1980, e de lá pra cá muitos de seus admiradores o transformaram em um mito sem qualquer ligação com a realidade […] Ele é visto por muitos como um cavalheiro caloroso e afetuoso, divertido, como um vovô excêntrico que conta histórias para as crianças dormirem”. Contra essa imagem superficial e tendenciosa, o autor apresenta sua versão sobre a personalidade do diretor. Descreve-o como “um homem brilhante, excêntrico, torturado e basicamente infeliz”, que carregava consigo um “enorme sofrimento psicológico, físico e social”.

A imagem de Hitchcock que Spoto rejeita – a de um “cavalheiro afetuoso” ou “avô excêntrico” – não coincide em nada com as histórias de bastidores contadas sobre ele. São histórias que fazem menção ao tratamento indiferente que Hitch destinava aos seus atores e ao tratamento sádico que dedicava, em especial, às suas atrizes.

O lema pessoal de Hitch era “atores são gado”. Ele se ressentia dos altos salários e da fama dos grandes astros e não permitia que nenhum deles – abrindo pouquíssimas exceções, como fez com Ingrid Bergman – sugerisse qualquer coisa ou opinasse na direção. Mas era com as mulheres, especificamente, que o seu comportamento se tornava  problemático. Hitchcock infligia às suas atrizes humilhações físicas e psicológicas. E é nesse aspecto que Spoto concentra sua análise, guiando-se pela premissa de que “o trabalho do biógrafo exige que o lado escuro dos biografados seja mostrado e compreendido”.

A motivação do autor em explorar esta face polêmica do diretor surgiu da observação de que Hitchcock raramente dizia algo sobre as estrelas de seus filmes. Não as elogiava – ou o fazia de forma extremamente comedida, declarando que certa atriz “estava muito bem” e que “tinha uma atitude calma e natural”. No entanto, essa atitude de fria indiferença escondia uma conduta cruel e tirânica.

Toby Jones e Sienna Miller caracterizados como Hitchcock e Tippi Hedren para "The Girl"

A maior vítima do sadismo de Hitchcock foi Tippi Hedren, a estrela de Os Pássaros. A atriz se tornou alvo da obsessão de Hitch, que a assediou, ameaçou, perseguiu e submeteu a uma verdadeira tortura. Para uma cena de Os Pássaros, em que os bichos atacam a personagem de Tippi, foram usados, ao contrário do que haviam prometido à atriz, pássaros de verdade. Tippi foi submetida a cinco dias desta tortura (os pássaros eram arremessados contra ela, bicavam e arranhavam), até o momento em que teve um colapso nervoso.

Para Donald Spoto, um dos objetivos de Fascinado pela Beleza é prestar tributo a atrizes que, como Tippi Hedren, contribuíram com seu talento para os filmes de Hitchcock, sem necessariamente ter recebido do diretor algum crédito por sua colaboração.

Quem se interessou pela abordagem do livro vai gostar de saber que duas produções, com estreias previstas para 2012 e 2013, prometem explorar temas semelhantes. “The Girl”, filme para a televisão inglesa, vai tratar da tensa relação de Hitchcock (Toby Jones) e Tippi Hedren (Sienna Miller). O diretor também será retratado no filme “Alfred Hitchcock and the Making of Psycho”, sobre os bastidores do clássico Psicose. Anthony Hopkinks e Scarlett Johasson foram escalados para os papéis principais.

Atenção: O blog vai entrar num pequeno recesso. Voltamos na próxima segunda (09/04).
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