O que determina a grandiosidade de um documentário, na minha opinião, é a sua ousadia de apresentar um tema pouco explorado e a capacidade de incentivar o expectador a pesquisar mais sobre o assunto. Preciso dizer que ao final de “The Cove” foi exatamente isso o que aconteceu comigo e foi o que me motivou a escrever esse post. Isso se deu não só pelas cenas chocantes que ficaram gravadas em minha mente, mas pelo cuidado que o filme teve ao mostrar os bastidores de uma situação tão caótica sem soar como um discurso de “ecochatos” querendo chamar atenção.

O documentário expõe a matança de golfinhos na costa do Japão, mais precisamente na pequena cidade de Taiji. São cerca de 23 mil animais mortos anualmente num período que vai de setembro à março. Uma prática cometida por uma gangue (esse seria o nome correto) de pescadores locais e ignorada pelas autoridades japonesas. No mercado “legal”, cada golfinho chega a valer U$$ 150 mil. Eles são vendidos principalmente para parques aquáticos ao redor do mundo, onde são mantidos em condições terríveis de cativeiro e expostos como atrações principais. Já os golfinhos que não “servem” para essa função são cruelmente sacrificados ainda no mar para ter sua carne comercializada.

Se por um lado um animal desses quando colocado num parque como o Sea World chega a render 2 a 3 milhões por ano só em bilheteria (um SENHOR investimento, diga-se de passagem), por outro, a carne de golfinho é rejeitada pela maior parte da população Japonesa. A “estratégia” dos vendedores é então vendê-la nos mercados da região como se fosse carne de baleia (considerada saudável e limpa). O consumidor, enganado, leva gato por lebre e acaba seriamente prejudicado, já que a carne de golfinho possui altos níveis de intoxicação por mercúrio. Como podemos ver, a questão é grave e não pode ser simplesmente ignorada.

Pensando nisso, Richard O'Barry juntou um grupo de ativistas dispostos a enfrentar perigos como a máfia japonesa, policiais e pescadores para chegar a uma pequena baía em Taiji, no sul do Japão, e assim conseguir registrar o extermínio sangrento de golfinhos. Curiosamente, O’Barry era o tratador de golfinhos na série de TV “Flipper”, sucesso da NBC na década de 60. Ninguém melhor do que ele para saber o tratamento que esses bichos recebem em cativeiro. O documentário segue os passos da equipe rumo à captura das imagens numa verdadeira operação de guerra, ao mesmo tempo em que faz um apanhado geral dessa triste situação.

A função de “The Cove” é abrir os olhos da população mundial para essa série de problemas que envolvem não só a questão ecológica, mas também a da saúde pública e o jogo de interesses políticos e econômicos por trás da pesca predatória de golfinhos. Nisso, o filme é extremamente competente, pois mostra os vários lados da situação, dando voz não só aos defensores dos direitos dos animais, mas aos biólogos, às pessoas comuns, pescadores e autoridades dentro e fora do Japão. A montagem simples e linear, mesclando depoimentos, imagens de arquivo e os bastidores da missão de Richard dá ao filme um ritmo interessante e mantém o expectador atento até às terríveis cenas finais.

O filme foi disponibilizado para exibição online no site oficial com versões em inglês e japonês. Na mesma página também é possível fazer o download do documentário e contribuir para que o projeto alcance o objetivo. Se você admira o Japão, vibra com shows em parques aquáticos e acha bonitinho nadar com golfinhos, prepare-se para repensar o assunto. Ao contrário do que qualquer filme sessão da tarde com animais, esse documentário é um verdadeiro soco no estômago. Aquilo que poderíamos definir como uma verdade inconveniente.