Dulce-Damasceno-de-Britto

Dulce Damasceno de Brito ao lado de alguém que dispensa apresentações

Pode parecer meio estranho vir aqui para resenhar um livro de 1968 que fala do cinema e das celebridades dos anos 1950 e 1960. Livros antigos não costumam ser novidades para ninguém, porque, no final das contas, muitas pessoas já os leram ou ouviram falar deles. Mas acredito que este, provavelmente, não seja o caso do “Hollywood Nua e Crua”, de Dulce Damasceno de Brito.

“Hollywood Nua e Crua” é um relato dos momentos que a jornalista Dulce Damasceno de Brito, falecida em 2008, passou como correspondente brasileira em Hollywood, escrevendo sobre cinema para jornais e revistas do país. Os dezesseis anos de atividades profissionais de Dulce em Hollywood podem não ser, nos dias atuais, de amplo conhecimento do público, mas chama atenção tanto sua condição de mulher num meio, à época, predominantemente masculino, quanto a sua aproximação com grandes artistas. Ficou amiguíssima de Carmem Miranda, Doris Day e Kim Novak e entrevistou Marlon Brando três vezes num período em que ele evitava a imprensa. E isso num tempo em que as estrelas de cinema ocupavam a condição de grandes deuses da sétima arte e estavam envoltos num glamour que os pintava como seres inacessíveis.

Dulce, como conta em seu livro, foi uma garota precoce, que deu início à carreira jornalística com a improvável idade de quatorze anos, quando colocou em circulação uma revista de cinema (por ser menor de idade, teve que pedir ao irmão mais velho que se registrasse como diretor). Mais tarde, em 1952, partiu com o marido para trabalhar como correspondente dos “Diários Associados” e da revista “O Cruzeiro” em Hollywood. As muitas histórias que colecionou foram reunidas neste livro, que é uma coletânea de curiosidades e também de suas impressões pessoais.

Dentre os casos notáveis citados no livro está o da aspirante a celebridade Simone Silva, que chamou a atenção da imprensa no festival de Cannes de 1954, ao aparecer vestindo apenas um saiote de palha e um top que, espertamente, com uma ajudinha do ator Robert Mitchum, deixou desamarrar-se, exibindo-se nua da cintura para cima em fotos que circularam o mundo e tornaram-na famosa da noite para o dia. Há também o episódio da estrela Dolores Hart que, no auge da fama, trocou o cinema por um convento. E ainda a revelação sobre a origem das ombreiras como acessório da moda que, segundo Dulce, teve a ver com uma estratégia para disfarçar os largos ombros da diva Joan Crowfoard e fazer com que as outras mulheres se vestissem como ela.

A seguinte frase, do todo poderoso produtor David O. Selznick, que Dulce repete mais de uma vez em seu livro, parece sintetizar suas impressões a respeito do universo hollywoodiano que conheceu de perto: “Hollywood foi tantas vezes criticada por produzir fantasias e sonhos. Mas são os sonhos que nos ajudam a sobreviver à realidade”. Dulce, tomada por esta visão de que um pouco de fantasia é sempre bem vindo para nos distrair da realidade – o que fica expresso, por exemplo, na sua reverência a Walt Disney -, derrete-se abertamente pela produção cinematográfica americana, comparando-a ao realismo do cinema europeu, em detrimento deste último.

É preciso admitir, no entanto, que “Hollywood Nua e Crua” se tornou bastante datado. Não necessariamente por fazer referência a estrelas e filmes do passado (estes sempre poderão ser material para abordagens atualíssimas), mas pelos pitacos pessoais da autora, que faz com que seu livro se aproxime muito mais de um livro de memórias. Reflexo do pensamento de sua época, Dulce procura explicações para a ocorrência cada vez maior de divórcios e demonstra-se surpresa frente a questões como a homossexualidade e as relações interétnicas, e tudo isso pode soar esquisito para o leitor contemporâneo. Ainda assim, o livro será uma leitura instigante para os nostálgicos, para os que não param de se fascinar com a vida de gente como Frank Sinatra, Elizabeth Taylor, James Dean, Lana Turner, Veronica Lake, Hedy Lamarr, Judy Garland, Gregory Peck, Sophia Lauren, Audrey Hepburn, Ginger Rogers e por suas histórias de fama, declínio, pobreza, riqueza, poder e ostracismo. É um gostinho que nós, amantes do cinema, podemos ter de uma época conhecida por suas grandes personalidades.

Tags: