O livro em duas versões: com a capa azul, inspirada no filme Sem Destino, de Dennis Hopper, e com a capa laranja, inspirada em Touro Indomável, de Martin Scorsese.

“Se existe um livro melhor sobre os bastidores do cinema, gostaríamos de ver”. É assim que o jornal inglês The Sunday Times se refere a “Como a geração sexo, drogas e rock’n’roll salvou Hollywood”.  E certamente não se trata de um exagero. O livro do jornalista Peter Biskind é uma valiosa e completíssima fonte de informação sobre um momento histórico decisivo para a indústria cinematográfica.

Os personagens principais do livro são velhos conhecidos nossos: gente como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, Steven Spielberg e George Lucas. Jovens cineastas que, nos anos 1970, foram responsáveis por promover uma revolução na forma de fazer cinema conhecida até então.

Até aquele momento quem dava as cartas na indústria cinematográfica eram os todo-poderosos donos de estúdios (grandes estúdios como Universal, 20th Century Fox, Paramount e MGM). Eram eles que tinham o poder de decisão, sobrando quase nada para os diretores, profissionais que pouco interferiam no resultado final de seu próprio trabalho.

A partir da década de 1970, porém, a coisa mudou de figura: os novos cineastas conquistaram espaço e influência, imprimindo suas características e personalidades nos filmes que faziam. Uma espécie de tomada de poder.

Mas essa mudança não ocorreu de uma hora pra outra, e tampouco se deu sem grandes resistências. Peter Biskind detalha todo o processo que levou a essa transformação, traçando um retrato da geração de aspirantes a diretores, roteiristas, montadores e atores que ajudou a construí-la.

O marco inicial das mudanças veio com Bonnie and Clyde, de 1967. O filme foi importante porque sinalizou uma ruptura com a centralização dos estúdios, já que foi idealizado, produzido e protagonizado por Warren Beatty, um ator (na época não era nada comum que alguém, além dos executivos de estúdio, tivesse tanto poder sobre um filme). Outro marco foi a criação da BBS, empresa desvinculada dos estúdios tradicionais, que deu chance a gente como Dennis Hopper fazer filmes como Sem Destino.

O que aconteceu foi um verdadeiro conflito de gerações: jovens cineastas e artistas manifestando-se contra o poder estabelecido e centralizado dos estúdios. O olhar que os primeiros lançaram sobre o cinema da época foi extremamente crítico. Eles entendiam o que viam como uma forma engessada de fazer cinema, pouco concatenado com o contexto em que viviam. Queriam falar, através dos filmes, de aflições e angústias que ficavam de fora das telas, como por exemplo, a guerra. E foi o que fizeram.

A geração dos anos 1970 levou aos cinemas coisas que ninguém estava habituado a ver: sexo, nudez, violência. Pode parecer comum, para nós, olhar pra essa produção setentista, mas imaginem como foi chocante e perturbador, para as pessoas da época, ver filmes como “Taxi Driver” ou “O Exorcista”.

Os filmes daquela década ficaram conhecidos, também, por trazer o estilo pessoal de seus diretores, algo que havia se diluído frente ao domínio dos estúdios. Havia os filmes de ficção científica de George Lucas, as comédias de Woody Allen, as aventuras de Spielberg. Foi recuperado o cinema autoral, conhecido antes por diretores como Alfred Hitchcock.

Os cineastas que capitanearam essa mudanças aparecem no livro de uma forma que, provavelmente, o leitor nunca viu em outro lugar. É como se estivéssemos conhecendo-os de perto, tendo acesso, inclusive, a fatos muito íntimos de suas vidas privadas. Há Spielberg, Scorsese e George Lucas brincando com (e quebrando) o caríssimo tubarão do filme de 1975. Jack Nicholson e suas namoradas, Dennis Hooper e suas confusões, e o diretor de O Exorcista, William Friedkin, sendo descrito como “o diabo em pessoa”.

São histórias deliciosas pra qualquer fã de cinema. Mas é bom frisar que “Como a geração sexo, drogas e rock’n’roll salvou Hollywood” não é um livro de fofocas e nem se limita a contar histórias. Mais do que isso, Peter Biskind apresenta uma tese coerente sobre a ascensão e queda da geração que mudou Hollywood, investigando seu comportamento e traçando o panorama de uma época. Seu excepcional trabalho de pesquisa cobre desde o momento de empoderamento dos cineastas dos anos 70 até a sua derrocada, vinte anos depois, quando os executivos recuperaram o poder.

“Como a geração sexo, drogas e rock’n’roll salvou Hollywood” foi publicado no Brasil pela editora Intrínseca, com tradução de Ana Maria Bahiana. Trata-se de um livro indispensável para quem gosta de cinema. Daqueles que, enquanto você está lendo, não consegue parar. E que quando acaba, deixa saudade.

Para quem quiser saber mais sobre esse fascinante momento da indústria cinematográfica, vale a pena conferir, além do livro, os documentários A década que mudou o cinema e o homônimo Como a geração sexo, drogas e rock’n’roll salvou Hollywood, ambos de 2003.

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