Se você não aguenta mais aquelas comédias românticas cujo forte não é exatamente a qualidade ou a criatividade, recomendo que veja Medianeras – Buenos Aires na era do Amor Virtual. O filme argentino de 2011 é uma produção que traz frescor ao gênero, entrando fácil, em minha opinião, na lista dos melhores do ano.

Além de criativo, Medianeras é também atual, pois explora essa característica tão própria dos nossos tempos que é a interatividade… no mundo virtual. Se, cada vez mais, a segregação espacial das grandes cidades promove a distância, mais a ausência de fronteiras da internet nos induz ao contato. No filme, Mariana e Martín moram na mesma cidade, bem perto um do outro, mas não adianta torcer pra que um esbarrão qualquer pelas ruas dê início à relação entre eles, porque não é isso que vai acontecer.

Martín e Mariana são personagens carismáticos e muito bem interpretados pelos atores Javier Drolas e Pilar López de Ayala. Martín é viciado em internet e tem como única companhia a cadelinha poodle deixada por sua ex-noiva. Mariana é uma arquiteta que nunca projetou nada e trabalha como vitrinista. Ambos sofrem de fobias: Martín quase não sai de casa e Mariana tem medo de elevadores.

Se os medos que os afetam – pessoas e elevadores – estão “lá fora” podemos entender o papel importante que a internet cumpre para aproximá-los. Elementos da cidade e da vida urbana são para eles obstáculos, assim como as “medianeras” do título. Medianeras é o nome que se dá, na lei argentina, às paredes que dão para o prédio vizinho. Para garantir a privacidade, janelas não devem ser colocadas ali. No filme, a superação dessas paredes, por meio das janelas, funciona como metáfora para a superação dos obstáculos que, nas grandes cidades, separam as pessoas.

Medianeras recupera em nós uma esperança digna de contos de fadas: aquela de cogitar a existência de uma [vai soar brega, gente, mas lá vai] “cara metade” reservada a nós pelo destino. Mas ainda assim, essa possibilidade é uma angústia (o que dá um toque de melancolia à narrativa divertida do filme), pela sensação de não sabermos se estaremos no lugar e hora certos para encontrá-la.

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